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sexta-feira, 30 de março de 2012

Vilancete de Despedida

Bahia sofro contigo
e, contristado, protesto
lançando este manifesto
que em rudes versos abrigo.
Meu canto é de filho amigo,
sem ódio, sem prevenção:
reclamo por compaixão.

Percorri toda a cidade,
de Itapuã à Ribeira,
transpondo vale e ladeira,
vi crianças na orfandade,
e clamei aos céus, piedade!
Sofro contigo, Bahia,
não faço demagogia.

Nas ruas, crime e loucura,
e a fome invadindo os lares,
mil desgostos e pesares,
abandono, desventura.
Prefiro sofrer censura
a calar por covardia:
não falo mal da Bahia.

Por ver-te nessa aflição,
minha terra, pobre terra,
meu verso é grito de guerra,
e, também, uma oração.
Reclamo por compaixão,
não faço demagogia,
não falo mal da Bahia!

Pacífico Ribeiro, 1962.


Os versos parecem de 2012.

Tristemente.

domingo, 25 de março de 2012

Junto

Eu gosto de ouvir bons solos, admiro instrumentistas solistas. Estou montando um trabalho solo. Gosto de pisar no solo e de dançar solo. Mas...o que eu gosto mesmo é de fazer as coisas em GRUPO.

Por mais solo que tudo seja, a graça mesmo, na minha opinião, está em compartilhar, dividir. Por mais solista que se seja, é preciso alguém na platéia pra ouvir aquilo, senão não tem graça. Músico que quer tocar pra ninguém, não é músico. Ninguém venha me dizer que não está nem aí pro reconhecimento. Pelo menos a sua mãe ou a sua mulher, você quer que goste do seu trabalho.

Tenho construído minha vida, minha carreira, acreditando nos coletivos. Apostando nisso. Foi o Movimento Hip Hop que me ensinou, que juntos somos mais fortes. Que juntos podemos (quase) qualquer coisa. Essa lição eu aprendi pra valer.

E adoro quando me chamam pra fazer participação especial nos shows dos amigos. Tá, não vou ganhar nada, mas quero estar ali, quero fazer parte - isso lá é não ganhar nada? É ganhar tudo! Dei um grito lá no corredor da escola: "Galera, me chamem pra qualquer coisa, qualquer gig, qualquer disciplina, ensaio, gravação - tô colada em vocês pra tudo." E é isso mesmo. Não é que quero me aparecer. (Talvez um pouco, hihihi.) Mas é que realmente acredito nisso. Na parceria. Em dar o braço. Em colar junto. Em gruvar (ou groovar, sabe lá).

E quero muito construir meu trabalho solo assim. Como assim trabalho solo em grupo? Pois é. É só assim que presta, é só assim que tem graça. Tenho conseguido juntar uma galera massa, um povo lindo, ao redor do meu sonho. E vou vendo que ele já nem é mais meu, quando um chega e fala: "...porque o nosso projeto". É isso mesmo. Bem piegas, mas totalmente verdadeiro:

Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto, é realidade.

E nem estou falando só de quem vai tocar comigo. Estou falando de quem está produzindo comigo e até de "bandas-amigas", como eu falo, grupos amigos, que tocam junto, que apóiam, que incentivam, que torcem, que perguntam. De modo que se um dia eu ganhar um Grammy, um Troféu Imprensa, um Braskem ou o Prêmio Tampinha de Ouro da Barraca do Seu Zé, acho que só vou chorar, porque não vou ter palavras nem tempo pra agradecer a tanta e tanta e tanta gente. E se eu não ganhar nada, velho...po, EU JÁ GANHEI TUDO, na moral...

Que bom estar (tão bem) acompanhada.

Obrigada, Deus!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Business

Droga!

Duas semanas sem voz. Ensaios todos cancelados, sem poder fazer as aulas, sem poder estudar canto nem percepção.

:S

Pra compensar...bem, vou aproveitando e estudando outras coisas: Piano, Harmonia e Composição, principalmente. Agora também mexendo no meu novo "instrumento", o computador. Pior que o computador - o Mac, argh! (E tudo que o envolve no momento, Finale, Garage Band, Pro Tools e tal.)

Hoje estou fazendo tudo isso ao mesmo tempo: compondo e escrevendo no Finale. Estou me divertindo muito. Até esqueci um pouco que estou aborrecida.

Ttambém ganhei um livro que eu estava querendo há algum tempo, o Música Ltda, de João Salazar. Minha professora que me deu! :)


 A capa fala por si só: "O negócio da música para empreendedores. Inclui um plano de negócios para uma banda."


Vejam como estou uma business girl. ;)


Beijos com tosse (droga).

segunda-feira, 12 de março de 2012

2012.1

Às vezes as pessoas perguntam: "mas o que é que se estuda numa faculdade de música?" Deus, eu queria saber por que o curso é tão curto, isso sim! 4 anos não dá pra nada! (Se você pensar em tudo que a música é e em tudo o que existe pra ser estudado.)

Não vou responder essa pergunta, porque ia levar mil anos. Então vou só contar pra vocês das disciplinas que eu peguei esse semestre.

Eu surtei e resolvi pegar 7 disciplinas. Pra um curso normal, 7 disciplinas já é pra deixar qualquer um meio pinel. Na área de Artes então...é muito, muito mesmo. Mas...eu espero dar conta de tudo. (Não, não espero manter meu juízo normal daqui até lá.)

Agora que estamos só no começo, estou beeeem feliz. Parece que peguei as disciplinas certas pra tudo que estou precisando estudar e fazer agora. Que bom. Vejamos:

1) Harmonia - Bem...Digamos assim, de modo bem leigo, que a música tem duas partes: aquilo que você canta e aquilo que o cara toca no violão. Aquilo que o cara toca no violão é a harmonia (meus professores me matam (e meus colegas violonistas me decepam a cabeça!) se virem esta definição, hihihi, mas hão de entender para quem escrevo). Pois bem. Digamos assim. Então é como se eu fosse estudar o "caminho" que a música toma, que tipo de tensões ela cria e desfaz.

2) Percepção - Ai, ai, ai...Já falei tanto de Percepção aqui que vocês já devem estar cansados. Percepção é o que o nome diz mesmo, é treinar o ouvido pra "perceber" mais coisas. Em termos práticos, é conseguir ouvir coisas na música e escrever numa partitura. E conseguir ler a partitura e fazer aquilo soar musicalmente. Deus me ajude (mais).

3) Canto - Bem, essa precisa explicar? Hihhi. Aqui vou estudar diferentes técnicas de canto, no caso, do canto popular brasileiro. Também estudo a história do canto no Brasil e diferentes timbragens interpretativas. Também pratico o canto, treino o que estou com mais dificuldade e ainda sou obrigada a passar pelas vexatórias "aulas shows". (risos) Digo vexatórias porque você cantar por prazer é uma coisa, mas cantar sendo avaliado...afe! Eu sei, sempre estou sendo avaliada, mas...elas valem nota, pelo amor de Deus! Hihih, eu reclamo mas amo; morro de nervoso, mas morro mais ainda quando não tem. Bem, elas já estão marcadas, vão lá na sessão de "shows" ver. ;)

4) Administração para músicos - O pessoal do curso de Música Popular inventou essa ótima disciplina, para nos ajudar a administrar nossas próprias carreiras. Na verdade, estamos vendo um pouco de produção, assessoria e administração mesmo. Bem bacana, já que os tempos mudaram e agora quem faz isso mesmo é a gente, hihih.(Exceto eu, que sou uma pessoa muuuuuuuuito chique e tenho produtora E acessora, licença, hihaihai!)

5) Composição - Sim, tomei coragem, enchi o peito e peguei composição. Bem, reza a lenda que vou aprender a compor nessa disciplina. Não sei bem como é, se temos regras para compor ou se vou virar um gênio de cabelos pra cima, mas...vou contando pra vocês. Sei que hoje já tenho que fazer uma composição inspirada livremente em alguém pra levar pro professor. Na partitura, é claro.

6) Piano - Piano popular. Então, vou aprender a tocar aquela Harmonia lá de cima pra me acompanhar ao piano e também alguns ritmos característicos da música brasileira, além de técnica pianística (levemente).

7) Tópicos em tecnologia - Outra invenção do curso, aqui vou estudar alguns programas de computador ultra básicos pra gente, como o Finale (no qual escrevemos na partitura) e Pro Tools (onde podemos fazer gravações por pistas, ou seja, com cada instrumento sendo gravado em separado). Bacaninha, né?

Bem, é isso, gente. Tá ou não tá super adequado para me ajudar? ;)

Viva o Curso de Música Popular (mesmo com toda bagunça, dificuldade, falta de aparelhagem, discussões chatas, etc, etc - É MEU E EU AMO)! (risos)

Aproveito pra divulgar que terça e quarta vamos ter a CALOUREMUS - a Calourada da Escola de Música. Das 18h as 20h estão todos convidados para assistir a jam que vamos fazer lá, microfone aberto, para calouros e veteranos.

VENHAM!! :)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Incorporando...

Ando sentindo isso...Uma força se apoderando de mim. Um negócio mexendo com minha energia, meus chakras. Papo esotérico...

Parece que algo se apodera de mim...Orixás? Incorporação? Sei lá...

As pessoas não acreditam, mas eu sou uma pessoa tímida. É sério. Há muitos anos treino pra disfarçar belamente. Parece que consigo. Mas só eu e Deus sabemos o que acontece com meu coração, meus intestinos e minhas pernas nos 15 (sim, 15!!!) primeiros minutos em cima do palco. Aí depois...vai dando uma relaxada...e algo vai se aproximando, se apoderando de mim. Em geral, não deixo. Penso no diafragma, penso naquela nota aguda que está por vir...e controlo as coisas.

Às veeeeeeeezes deixo. Uma coisa maior que eu tomar conta de tudo. É nesses dias, nessas horas, que não quero nem saber se a corda do guitarrista quebrou, se o público achou que desafinei, se algum crítico achou minha roupa inadequada. Nesses dias, quando esse "algo estranho" se apodera de mim, sinto que "guigou", como a gente fala. Que algo misterioso rolou ali. Que aquele momento foi "irrepetível". E aí não fui eu que fiz o show sozinha, exatamente. Foi uma "força estranha". E todo a dificuldade para estar ali parece que vale a pena.

E esses dias...não sei explicar como nem porquê, essa "força" tem vindo com mais força, mais frequência, mais nitidez. Antes era só em shows especialíssimos. Depois em todos os shows, pelo menos um pouquinho. E agora...é em show, ensaio, até estudando sozinha, ela vem. É um negócio que me arrebata que já nem sei se sou branca ou preta, brasileira ou gringa, se ando ou voo, se estou com fome ou se tenho conta pra pagar. Já nem sei se sou gente, instrumento, pássaro ou pedra. É um negócio que eu fecho os olhos e sinto que sou o mundo inteiro, que eu e todo mundo somos uma coisa só, que eu falo a língua dos instrumentos e que o sentimento vem com tanta força, que quase não seguro as pernas, as lágrimas, os gritos, o coração.

Acho que, quando eu deixar isso tomar completamente conta de mim, das duas uma: ou enlouqueço (de vez) ou viro artista (de verdade).


Por isso uma força me leva a cantar,

por isso essa força estranha no ar.

Por isso é que eu canto, não posso parar.


Por isso essa voz tamanha

(Força estranha, Caetano Veloso)